Em 1928 Korngold, de acordo com seu biógrafo Grzegorz Rytel, publicou um texto sobre arte numa revista húngara, em que resenhou as duas décadas anteriores do desenvolvimento da arquitetura polonesa. Nele, menciona, com reverência, seus professores universitários e os arquitetos da geração anterior, cujas obras pertencem à corrente classicista: Czesław Przybylski, Marian Lalewicz e Tadeusz Tołwiński. Concomitantemente, ressaltou que os tempos de "homenagear o passado" estavam acabando e que era iminente a época da "criação de novos valores"em arquitetura. As opiniões de Korngold e seu estilo formaram-se, então, no ponto de cruzamento do antigo e do novo, entre os classicistas e os vanguardistas. Como evidenciam suas realizações posteriores, inspirava-se em ambas as correntes, combinando a harmonia e o equilíbrio do classicismo com as simplificações e a geometria propostas pelos modernistas.
Companhia de seguros "Polonia"
Desde o início dos anos 30, Korngold dirigiu um estúdio arquitetônico próprio em Varsóvia. Uma das suas primeiras realizações foi a sede da seguradora "Polonia", na praça Dąbrowskiego no. 1, em Varsóvia, desenhada em 1931 em colaboração com Henryk Blum. Em consonância com a vontade do investidor, a fachada do edifício de quatro andares distinguiu-se, na área, por suas formas elegantes e harmoniosas. O classicismo em arquitetura foi recriado para despertar nos clientes a sensação de confiança e segurança. Vários tipos de pedras, balaústres, semi-colunas de apoio a cornijas decoradas em alto-relevo deram ao prédio o estilo pretendido. A sede da Companhia Seguradora "Polonia", embora tenha sido construída a partir de um imóvel já existente, transformou-se numa construção original em suas formas clássicas.
Mansão da rua Chocimska
Quase exatamente no mesmo tempo, Korngold projetou, novamente em colaboração com Henryk Blum, o casarão da rua Chocimska, em Varsóvia, uma das suas realizações mais conhecidas. Situada no alto de uma escarpa, com formas plenamente diferenciada, a edificação foi composta por umas "caixas", cubos simples, sem detalhes, rebocados em branco. O andar térreo apoiado em pilares, um terraço na laje da ala lateral, fileiras horizontais de janelas... a inspiração nas criações modernistas de Le Corbusier era bem evidente. Infelizmente, nos anos 60, a casa foi remodelada, perdendo muito do seu formato original.
"No momento de sua construção, a mansão da Chocimska estava à frente da vanguarda varsoviense e polonesa, sendo um dos primeiros presságios do funcionalismo purista na Polônia, o assim chamado estilo racional", escreve, no livro "Lucjan Korngold. Warszawa-São Paulo 1897-1963", o biógrafo do arquiteto, Grzegorz Rytel.
Casas e edifícios residenciais em Varsóvia

Mansão da família Łepkowski da rua Francuska 2, segundo o projeto de Lucjan Korngold, foto: Culture.pl
Nos anos 30, Korngold projetou várias casas e edifícios residenciais urbanos. Na capital, que se desenvolvia rapidamente, havia grande procura por construções residenciais e comerciais entre os homens de negócio e os funcionários enriquecidos. Korngold, assim como outros arquitetos varsovienses de então, Juliusz Żórawski, Maksymilian Goldberg, Hipolit Rutkowski ou Jerzy Gelbard e Roman Sigalin (com os quais havia colaborado no início de sua carreira), projetava casas que combinavam a forma modernista com o requinte procurado pelos contratantes, o que se refletia principalmente na escolha cuidadosa dos materiais, acabamentos elegantes, atenção aos detalhes e equipamentos luxuosos. Um excelente exemplo desta concepção é o prédio de Oskar Robinson, construído nos anos 1935-1937 na rua Koszykowa. A forma rigorosa e funcional, com grandes superfícies de vidro e a fachada lisa, dinamicamente dividida com faixas de janelas, esconde interiores que contemplam elevador e detalhes em bronze e cromo-níquel. As casas possuem estrutura semelhante. Korngold é o autor das residências mais luxuosas das ruas Obrońców (projetada juntamente com Piotr Kwiek) e Francuska (com Piotr Lubiński), na prestigiada zona residencial Saska Kępa.
Lucjan Korngold desenhou também interiores e mobílias que, com suas formas modernas, satisfaziam as demandas dos burgueses abastados e se amoldavam às novas residências urbanas.
No Brasil

Prédio CBI Esplanada, São Paulo, projeto: Lucjan Korngold, 1948
A carreira varsoviense do arquiteto foi interrompida pela Segunda Guerra Mundia. Em dezembro de1939, ele fugiu da Polônia junto com a mulher e o filho. Graças aos antigos contatos de Eugênia Korngold na embaixada da Itália, a família chegou a Roma e, seis meses mais tarde, partiu para o Brasil. Em seu novo destino, o arquiteto quis voltar a exercer a sua profissão o mais brevemente possível. Ao contrário do que se pode pensar sobre um país tão exótico como o Brasil, na perspectiva da Polônia, o modernismo também se impunha como tendência artística.
"O desenvolvimento da arquitetura brasileira desde os anos 20 do século XX tem sido estimulado pelos princípios teóricos da arquitetura modernista europeia. Com os arquitetos europeus que emigravam para a América do Sul e os brasileiros que voltavam para o país depois de concluir os estudos nas escolas europeias de arquitetura, chegavam ao Rio de Janeiro e a São Paulo informações sobre a realização prática das ideias vanguardistas."- assim descreve Grzegorz Rytel a situação que Korngold encontrou no Brasil.
A família Korngold instalou-se em São Paulo. O arquiteto não tinha direito a trabalhar por conta própria (para tanto, era necessária a cidadania brasileira), razão pela qual começou a atuar numa empresa de projetos de grande porte. Ali, em colaboração com o arquiteto húngaro Francisco Beck, preparou o projeto de vários edifícios públicos, prédios de escritórios, sedes de bancos. As formas modernistas, empregadas com êxito em Varsóvia, também em São Paulo eram populares e cobiçadas por investidores. Mudara, porém, a escala dos objetos e o arquiteto teve que aprender desenhar arranha-céus. Desde meados dos anos 40 do século XX, a situação econômica no Brasil era bastante próspera, o que incentivava investimentos em construção. Os edifícios de escritórios neste país, assim como nos EUA na mesma época, eram erguidos no estilo modernista e, eventualmente, decorados com um ou outro detalhe em pedra. Em São Paulo, muitas destas edificações foram desenhadas por Lucjan Korngold. No ano de 1946, foi criado o projeto do prédio CBI Esplanada, a ser erguido numa das maiores praças da cidade. Quando, em 1950, o prédio de 33 andares foi inaugurado, sagrou-se o edifício de concreto armado mais alto no mundo. Korngold deu-lhe a forma minimalista de um octaedro e cobriu suas fachadas com uma rede de caixilhos grossos.
"As proporções equilibradas do CBI Esplanada caracterizam-se por uma moderação típica das realizações varsovienses de Korngold. O prédio destaca-se na paisagem do centro de São Paulo, repleto de arranha-céus, e até hoje, apesar de terem sido erguidos na sua vizinhança várias construções de altura semelhante, continua bem identificável graças à arquitetura de forma harmoniosa e expressão homogênea.", escreve Grzegorz Rytel.