Antes de se voltar para o mundo do teatro, Lupa estudou na Faculdade de Física na Universidade de Kraków. Logo em seguida, abandonou o curso para se matricular na Academia de Belas Artes em Kraków, onde se graduou em desenho gráfico no ano de 1969. Durante os dois anos seguintes estudou direção na Escola Nacional de Cinema, Televisão e Teatro em Łódź [Państwowa Wyższa Szkoła Filmowa Telewizyjna i Teatralna]. Em 1973, ingressou no programa de direção teatral da Escola Nacional de Teatro em Kraków [Państwowa Wyższa Szkoła Teatralna w Krakowie].
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Kantor e Swinarski: Os Mestres de Sua Trajetória
Ainda como estudante, Lupa desenvolveu uma relação profissional com Konrad Swinarski. Ele frequentou suas aulas de análise dramática e foi seu assistente durante a montagem de Hamlet no Stary Teatr em Kraków [Stary Teatr]. Segundo Lupa, foi através de Swinarski que ele aprendeu a explorar o sentido individual de cada cena e a trabalhar com os atores. Na mesma medida, ficou também fascinado pelo teatro de Tadeusz Kantor e a forma que estabelecia a função do ator dentro da realidade cênica.
"Para mim, as obras de Swinarski e Kantor foram um acontecimento psicológico. Especificamente, tenho em minha mente as encenações das peças 'Wyzwolenie' (A libertação) e 'Umarła klasa' (A classe morta)", disse Lupa. ("Teatr", 1979, nº 15)
Por outro lado, Carl Gustav Jung provou-se ser um autor de fundamental importância para o diretor.
"Se posso dizer que tenho um mentor, o meu seria, sem dúvida, Jung", afirmou Lupa. "É o pensador que mais me iluminou. Psicólogo, psiquiatra, filósofo, mas também, como apontou Jerzy Prokopiuk num dos seus prefácios, Jung é um gnóstico do século XX. Também é um mestre do caminho, não apenas da verdade, mas do caminho até a verdade" (Notatnik Teatralny, 1993, nº 6).
Lupa estreou no teatro em 1976. Dirigiu "Rzeźnia" (Matadouro) de Sławomir Mrożek no Teatro de Juliusz Słowacki em Kraków [Teatr im. J. Słowackiego w Krakowie]. Para a apresentação no exame final do curso, escolheu a obra "Nadobnisie i koczkodany" (Formas delicadas e macacos peludos, 1977) de Stanisław Ignacy Witkiewicz, texto que já tinha trabalhado anteriormente, pois foi a adaptação deste drama que ele apresentou no exame de ingresso na Escola de teatro
"Talvez seja uma das melhores representações da obra de Witkacy (nome artístico de Stanisław Ignacy Witkiewicz) que já surgiu nos nossos palcos", escreveu o crítico P. Kamiński após a estreia. "Lupa rejeitou totalmente o estilo efusivo e maneirista que durante muitos anos nos tem assombrado nessas encenações, fazendo um espetáculo tanto cômico quanto trágico, austero em termos de forma e claríssimo no plano do pensamento" ("Literatura", 1977, nº13).
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Witkacy: Ensaios de laboratório
Depois da graduação, Lupa foi contratado pelo Teatro de C.K. Norwid na cidade de Jelenia Góra, onde voltou a dirigir "Nadobnisie i Koczkodany" (1978) e onde, duas vezes mais, recorreu a Witkacy encenando os dramas "Pragmatyści" (Os Pragmatistas, 1981) e Maciej Korbowa e Bellatrix (1986).
"Lupa não interpreta Witkacy baseando-se na perspectiva dos sistemas totalitários do século XX, como tem sido o costume, mas sim nas mudanças culturais do fim do mesmo século", escreveu Grzegorz Niziołek. "Em vez de prezar em Witkacy o fato de ter sido um dramaturgo vanguardista, ele procura realçar na sua obra uma forma especial de realismo (o grotesco como atributo da realidade, mais do que da própria arte). O que o interessa nas situações interpessoais registradas nesses dramas são os sintomas das mudanças antropológicas e não das políticas. Witkacy é também representante do modelo de artista próximo da visão de Lupa, aquele em que o artista procura se manifestar através de várias formas de arte (drama, teatro, romance, pintura, desenho) e que trata o próprio ato de expressão artística como um ato total envolvendo, inclusive, o subconsciente e as vivências mais íntimas do criador ("Sobowtór i utopia. Teatr Krystiana Lupy", 1997, Cracóvia).
Paralelamente, em Jelenia Góra, Lupa encenava outras peças: "A vida do homem" (1977) de Leonid Andreiev, "Matka" (Mãe) de Stanisław Przybyszewski (1979) , "Pieszo" (A pé) de Sławomir Mrożek (1982), "Ślub" (O casamento) de Witold Gombrowicz (1984). Ainda em 1978, realizou no palco do Stary Teatr em Kraków a peça "Iwona Księżniczka Burgunda" (Ivone, princesa da Borgonha) de Gombrowicz. Os críticos repararam, naquela época, como Lupa se interessava pelas relações interpessoais recriadas no palco através de um jogo psicológico finamente matizado com destaque para as complexas motivações dos personagens. Foi várias vezes destacada a precisão com a qual Lupa compunha cenas e a grande habilidade em interpretar os momentos de silêncio e de repetir, consciente e propositadamente, certas sequências abrandando o ritmo da ação e realizando experimentos com o tempo no palco. Nesta época surgiram os espetáculos com roteiros originais de Lupa, intitulados "Przezroczysty pokój" (A sala transparente, 1979) e "Kolacja" (O jantar, 1980).
“Ambos os espetáculos tinham a forma de um manifesto artístico com motivos autotemáticos”, escreveu Grzegorz Niziołek. “O teatro de Lupa, uma vez livre da literatura, revelou a sua forma mais pura, a de um teatro sem enredo, um teatro de relações humanas e de estados psíquicos hipnotizantes”. ("Sobowtór i utopia. Teatr Krystiana Lupy", 1997 Cracóvia).
Nos folhetos destas peças estava escrito “cenário: Krystian Lupa e produção coletiva do elenco”. Ainda em Jelenia Góra, o trabalho de Lupa com os atores ganhou características especiais não apenas nos espetáculos originais. Os seus colaboradores daquela época se referem ao seu método de realização de peças de ensaios de laboratório.
"Krystian ensinou-me logo no início a coisa mais importante, que o teatro é algo muito além do que simplesmente se exibir, se mostrar, nutrir a sua vaidade", disse Piotr Skiba, ator que tem trabalhado com Lupa desde a era de Jelenia Góra. "O teatro deveria ser uma ponte à terra da espiritualidade... Lupa não faz um teatro de situações, o que ele faz é guiar o ator através dos problemas, assuntos ou tarefas. As situações são um produto final, último" ("Notatnik Teatralny" 1999, nº 18-19).
Musil, Bernhard: fascínios austríacos
Desde 1980, Krystian Lupa tem colaborado com o Stary Teatr em Kraków, onde surgiram as suas obras mais notáveis. Começou o seu trabalho encenando "Powrót Odysa" (O retorno de Odisseu), de Stanisław Wyspianski (1981), uma peça a qual ele retornaria em 1999 numa montagem no Teatr Dramatyczny em Varsóvia. Foi também no Stary Teatr que pela primeira vez empregou a literatura austríaca. A peça original "Miasto snu" (Cidade do sono, 1985) foi inspirada no romance de Alfred Kubin, "O outro lado" (1909). Em 1988, Lupa dirigiu "Os visionários" de Robert Musil, uma peça que abordava o tema do declínio dos ideais através de um homem em busca permanente de sua identidade.
"No espetáculo de Lupa, assim como no drama de Musil, o ser humano é uma entidade estranha e impenetrável" escreveu Bożena Winnicka. "Dentro dele, acontecem coisas incompreensíveis. As intenções e os feitos, as emoções e os pensamentos, a êxtase e o temor, tudo está em movimento constante" ("Życie Literackie" 1988, nº 15).
Lupa regressaria a Musil dois anos depois, adaptando para o teatro uma obra monumental e épica, o romance ensaístico e filosófico "O homem sem qualidades". O espetáculo "Szkice z 'Człowieka bez właściwości' Roberta Musila" (Esboços de O homem sem qualidades de Robert Musil) foi a produção de conclusão de curso dos estudantes da Faculdade de Interpretação da Escola Superior de Teatro em Kraków. Sua próxima adaptação da prosa austríaca foi a peça, inspirada pela obra de Rainer Maria Rilke, "Malte albo tryptyk marnotrawnego syna" ("Malte ou o tríptico do filho pródigo" , 1991).
Em 1992 Lupa deparou-se pela primeira vez com a obra de Thomas Bernhard, encenando o seu romance "Kalkwerk". A peça obteve a reputação de um grande tratado metafísico sendo ao mesmo tempo, e graças à excelente interpretação, um retrato esmagador do sofrimento físico e psíquico de um homem que tenta buscar sentido em mundo totalmente rotinizado. A peça de Lupa de 1995, "Lunatycy. Esch, czyli Anarchia" (Os sonâmbulos. Esch ou a anarquia), desta vez baseada no original alemão, foi a adaptação do segundo volume do grande romance em trilogia do austríaco Hermann Broch. Os sonâmbulos, que abrange o período entre o final do século XIX e o fim da Primeira Guerra Mundial, descreve o processo de desintegração da sociedade causada pela decadência dos valores vigentes.
"Como se exprime o amor pelo ser humano que tanto me conquistou nessa peça...?", pergunta o crítico eminente Andrzej Wanat. "Através de uma sensível nitidez da percepção. Na aceitação da humanidade com toda a sua feiura, risibilidade, animalidade e todas as artificialidades e falsas aparências impostas pela cultura à natureza. Em reparar nos temores e nas ânsias do espírito escondidos atrás das reações biológicas: a falta de comunidade, de ordem, a cobiça em atenuar, mesmo que seja por pouco tempo, o medo da morte... Tudo isso desajeitado, cheio de desespero, patético e um tanto cômico, portanto verdadeiro, ou seja, grande, apesar de sua vileza" ("Teatr" 1995, nº 7/8).
"A consciência de Lupa é uma consciência europeia", escreveu o dramaturgo e crítico Piotr Gruszczyński sobre o teatro de Lupa, se referindo especificamente à produção, em Kraków, de "Lunatycy". "Suas peças refletem o cansaço do velho continente e todo seu processo de decadência. Ser polonês, alemão ou austríaco não tem importância. O que importa é o contexto espiritual em que agimos e vivemos e não o nacional, o histórico ou o político... A espiritualidade europeia do século XX é a dimensão mais essencial de atividade, o local do esforço real e do conflito, um território de grandes tensões" ("Notatnik Teatralny" 1999, nº 18-19).
A segunda parte de "Lunatycy", com o subtítulo "Hugenau, czyli rzeczowość" (Huguenau ou a objetividade), foi encenada por Lupa em 1998.
"A peça de Lupa transgride despercebidamente os limites definidos pelo romance e se torna um penoso tratado sobre a estranheza da existência", apontou Piotr Gruszczyński. "Estamos absolutamente desamparados diante de nossa existência, talvez mais do que diante da morte. É uma perspectiva da existência contemporânea como tragédia. Com efeito, não importa se vivemos nos tempos de guerra ou de paz. A única diferença que a guerra traz, é no fato de exibir mais intensamente o nosso embaraço com a existência" ("Teatr" 1998, nº 45)
Em "Rodzeństwo. Ritter, Dene, Voss" (Os irmãos. Ritter, Dene, Voss), de Bernhard (1996), que conta a vida do filósofo austríaco Ludwig Wittgenstein, fazendo uma abordagem similar à peça "Kalkwerk", também de Bernhard, Lupa se foca no comportamento rotineiro de três irmãos, dando destaque aos conflitos emocionais nos quais se encontra envolvido o futuro gênio. Também no Teatro Polski em Wrocław, onde vem colaborando desde 1996, Lupa voltou-se aos autores austríacos. Lá, encenou "Immanuel Kant" de Thomas Bernhard (1996), "Dama z jednorożcem" (A dama e o unicórnio) baseado no conto "Hanna Wendling" de Hermann Broch (1997) e "Kuszenie cichej Weroniki" (A tentação da quieta Verônica) baseado no conto de Robert Musil (1997).
Em 2001, no Teatro Dramatyczny de Varsóvia, encenou mais um romance de Bernhard, "Auslöschung/Wymazywanie" (Auslöschung/Extinção), baseado em sua própria tradução (2001), peça que explorava a questão da memória, a tentativa da apagar a própria biografia e a possibilidade de nascer de novo.
"O tema da transformação espiritual ou renovação não é uma novidade no teatro de Lupa, não obstante, parece que desta vez foi abordado com uma paixão inédita", escreveu Janusz Majcherek, que antes havia realçado que "...é notável a familiaridade de Lupa com o texto de Bernhard, um texto que ao mesmo tempo o atrai e o repele, cuja leitura, para ele, é uma compulsão, ainda que dolorosa” ("Teatr" 2001, nr 5).
No palco do Teatro Dramatyczny em Varsóvia o diretor retorna a Bernhard, encenando a sua peça "Na szczytach panuje cisza"(Über allen Gipfeln ist Ruh, 2006), mas antes, ainda preparou a peça "Niedokończony utwór na aktora według 'Mewy' Czechowa/'Sztuka Hiszpańska' Yasminy Rezy" (Obra inacabada para um ator baseada em 'A gaivota' de Chekhov/Peça espanhola de Yasmina Reza, 2004). Os dois espetáculos fazem uma reflexão sobre a essência da criatividade artística e a figura do artista.
Dostoiévski, Tchekhov: Estado de Espírito Europeu
Em 1997, no Stary Teatr, Lupa encenou a comédia de Yasmina Reza "Sztuka" (Arte), repleta de ironia, mas produzindo um tipo de humor de tendência séria.
Lupa encenou também as obras da literatura russa: "Bracia" (Os irmãos, 1988), uma peça baseada em "Os irmãos Karamazov" de Fiódor Dostoiévski e preparada como projeto final do quarto ano da Faculdade de Interpretação da Escola Superior Nacional de Teatro, onde tem ensinado desde 1983. Em 1990, voltou a encenar esta mesma obra no palco do Stary Teatr em Kraków. A nova versão de "Os irmãos Karamazov", que se tornou um grande afresco teatral, foi adaptada por Lupa em 1999. Junto com os estudantes da Faculdade de Interpretação da Escola de Teatro em Kraków, no âmbito dos exames finais, o diretor encenou dois textos de Anton Tchekhov: uma adaptação de Platonov, composta de duas partes e intitulada "Płatonow wiśniowy i oliwkowy" (Platonov cor de cereja e azeitona, 1996) e, dois anos mais tarde, "As três irmãs" (Trzy siostry). Também adaptou para o palco "O Mestre e Margarida" de Mikhail Bulkhakov (Stary Teatr em Kraków, 2002) e no Teatro Polski, em Wrocław, preparou a peça "Azyl" (Asilo) baseada no drama de Máximo Gorki (2003).
O diretor recorreu também à dramaturgia contemporânea dirigindo "Prezydentki" (As presidentas) do austríaco Werner Schwab (Teatro Polski em Wrocław, 1999) e "Stosunki Klary" (As relações de Clara) da dramaturga alemã Dea Loher (TR Warszawa, 2003).
As duas peças seguintes de Lupa foram criadas no Stary Teatr em Kraków. A primeira, que teve sua estreia internacional em Atenas durante o Hellenic Festival em 2004 (sua estreia na Polônia se deu no Stary Teatr, em 2005) foi "Zaratustra", baseada em "Assim falou Zaratustra" de Friedrich Nietzsche e "Nietzsche. Trilogia" de Einar Schleef. Nessa adaptação teatral do texto filosófico Lupa mostra, com bastante drama e rigor, a viagem espiritual de um homem, faz perguntas sobre o sentido da existência humana, da existência na ausência de Deus e sobre os limites da percepção humana. Na segunda peça Lupa refletiu sobre a essência da criação, a consciência do artista e o papel do acaso na arte.
Em 2008, Lupa apresentou "Factory 2", baseado em seu próprio roteiro e inspirado na vida e obra de Andy Warhol e o seu lendário estúdio.
Desde 2009 ele tem trabalhado no tríptico "Persona", sobre a personalidade de três mulheres que ultrapassam fronteiras e gerações. Lupa foca em três ícones femininos do século XX: Marilyn Monroe, Simone Weil e George Gurdjieff.
Em 2011, o seu espetáculo "Poczekalnia.0" (Sala de espera.0) estreou no Teatro Polski em Wrocław.
Em 2012, os espectadores tiveram a oportunidade de assistir a nova peça de Krystian Lupa, "Miasto Snu" (Cidade do sono), uma adaptação da obra de Alfred Kubin, "O outro lado". A peça foi encenada em colaboração com o elenco do TR Warszawa e em cooprodução com o Instituto Adam Mickiewicz. A estreia oficial ocorreu no dia 5 de outubro em Paris, no Théâtre de la Ville, e a estreia na Polônia aconteceu em Varsóvia, em 10 de novembro no estúdio Hala Transcolor.
Krystian Lupa dirigiu também, fora da Polônia, as obras "Os visionários" de Robert Musil no Thalia Theater em Hamburgo (2001), "Solaris" de Stanisław Lem no Düsseldorfer Schauspielhaus (2005), "As três irmãs" de Anton Tchekhov no American Repertory Theatre (2005), "A flauta mágica" de Mozart no Theater in der Wien (2006), entre outras obras.
Teatro de Extremos Psicológicos
Lupa é um mestre em criar no palco uma realidade que é internamente coerente. Frequentemente, é ele próprio quem traduz e adapta o texto, cria o cenário e encena as peças onde, ocasionalmente, também atua no papel de narrador. Ele consegue alcançar uma extraordinária unidade de expressão e criar conceitos de extrema clareza e precisão. Um papel importante nas suas peças se refere ao uso da música que:
em princípio só pode existir juntamente com a ação. É um espaço sonoro totalmente integrado com o que fazem os atores. Por vezes, harmoniza-se tanto com a sequência das ações que os espectadores deixam de reparar nela" (Tadeusz Kornaś, "Notatnik Teatralny" 1999, nº 18-19).
A qualidade do teatro de Lupa resulta, em grande medida, da interpretação muitas vezes considerada ”invisível” ou “transparente” graças aos atores que se fundem quase que inteiramente com o personagem interpretado. Via de regra, o personagem impregna o ator de tal modo que se torna possível captar, dentro do ambiente íntimo da peça, as mais diminutas nuances psicológicas e contradições interiores.
“Lupa cria um teatro de extremos psicológicos numa época onde reinam a hipocrisia e as distrações baratas", escreve Tomasz Man. "Lupa avisa: se o entretenimento é vil, assim será o homem, a vida, a alma, a razão, a sensibilidade... Suas peças começam no lugar onde não se fazem perguntas e terminam quando tudo que nos toca tinha sido colocado em questão. Esse paradoxo magnífico não é um mecanismo, mas sim revela uma impossibilidade de nomear o ser humano em sua totalidade. Assim surge o mistério de ser humano para si e para os outros... No mundo construído no palco, cada indivíduo é internamente contraditório. Constrói castelos de cartas, porque lhe faz sentido. Enlouquece porque não encontra resposta à pergunta sobre quem ele realmente é" ("Notatnik Teatralny" 1999, nº 18-19).
No Teatro de Televisão (Teatr Telewizji), Krystian Lupa fez a sua estreia em 1978 com a encenação da peça "Wariat i zakonnica" (O louco e a freira) de Stanisław Ignacy Witkiewicz. Preparou também versões para a televisão das peças "Os visionários" de Robert Musil (1991), "Immanuel Kant" (1997) e "Kalkwerk" de Thomas Bernhard (1998), "A tentação da Quieta Verônica" de Robert Musil (2000) e "Hanna Wendling" de Hermann Broch (2001). Em 1993, realizou a peça em três partes "W stronę Klarysy. Szkice z Człowieka Bez Właściwości" Roberta Musila ("No caminho de Clarissa. Esboços de O homem sem qualidades" de Robert Musil) baseado numa versão da peça por ele realizada em 1990 na Escola de Teatro em Kraków. Para a televisão, foram realizadas ainda mais duas peças do diretor: "Stary dom" (Casa velha) de Hans Christian Andersen (1994) e "Julia", peça original baseada no conto de Lidia WIlk "Z południowych mórz" (1998).
Krystian Lupa é o autor da antologia de ensaios "Utopia i jej mieszkańcy" (A utopia e seus habitantes, 1994) e de três volumes de prosa: "Labirynt" (Labirinto, 2001), "Podglądanie" (Espreitadela, 2003) e "Utopia 2. Penetracje" (Utopia 2. Penetrações, 2003) onde se encontram fragmentos do diário de Lupa que o encenador vem escrevendo há anos.
Árvores abatidas: o jantar com Bernhard
No dia 23 de outubro de 2014, no Palco de Jerzy Grzegorzewski do Teatro Polski em Wrocław, teve lugar a famosa estreia de "Wycinki.HOLZFÄLLEN"(Árvores abatidas.HOLZFÄLLEN) baseado na prosa de Bernhard, aclamado pelo público e pelos críticos como o melhor espetáculo da temporada. "Pela crítica engenhosa sobre a posição do artista e por ter confrontado o público com as verdades mais incômodas, e também pela totalidade da visão e do imaginário que garante numerosos momentos teatrais magníficos", disse o veredito do júri internacional do festival "Boska komedia" em Kraków do qual o encenador e seu grupo saíram premiados nas três categorias mais importantes.
"Bernhard critica a situação em que se esvanecem a intransigência e a luta por um mundo diferente que caberiam aos artistas no início do seu caminho criador. Os artistas começam a se envolver em relações com autoridades cínicas e ignorantes, comprometem-se afim de dirigir suas carreiras. É um espetáculo sobre problemas que enfrentam homens de cultura, sobre mecanismos que têm impacto na cultura", disse Lupa acerca da peça.
O encenador foi também reconhecido pelo grêmio da emissora TVP Kultura, que na ocasião do seu décimo aniversário outorgou a Krystian Lupa o prêmio especial "Supergwarancja" (supergarantia) para o artista que incessantemente buscou provocar e inspirar, para quem a arte é uma forma de conhecer o ser humano e descobrir os seus segredos. Pela força da recriação da realidade no palco e a capacidade extraordinária de atrair o público. Para o encenador que, mais uma vez, evidenciou sua excelência encenando Árvores abatidas de Thomas Bernhard no Teatro Polski em Wrocław" lê-se no discurso laudatório. Ao receber o prêmio, Krystian Lupa disse que a tarefa dos homens de cultura é convencer os outros que uma vanguarda dinâmica e progressista é a garantia do desenvolvimento dinâmico das cidades. Há-de saber falar sobre isso – comentou o diretor.
Maiores prêmios e condecorações:
- 1978 – Prêmio de direção e cenografia da peça "Nadobnisie i koczkodany" (Formas Delicadas e Macacos Peludos) de Stanisław Ignacy Witkiewicz no Teatr im. C.K. Norwida em Jelenia Góra na 4ª edição do festival Opolskie Konfrontacje Teatralne;
- 1979 – Condecoração de honra ao mérito, pela cidade de Jelenia Góra;
- 1983 – Distinção pela elaboração da forma teatral da peça "Pragmatyści" (Os pragmatistas) de Stanisław Ignacy Witkiewicz no Teatr im. C.K. Norwida em Jelenia Góra na 23ª Jornada Teatral de Kalisz (Kaliskie Spotkania Teatralne); Opole – prêmio pelo trabalho nos dramas de Stanisław Ignacy Witkiewicz "Pragmatyści" no Teatr im. C.K. Norwida em Jelenia Góra e "Bezimienne dzieło" (Obra sem título) no Stary Teatr em Kraków na 9ª edição do festival Opolskie Konfrontacje Teatralne;
- 1987 – Prêmio pela forma visual da peça de Stanisław Ignacy Witkiewicz Maciej Korbowa e Bellatrix no Teatr im. C.K. Norwida em Jelenia Góra no 13º festival Opolskie Konfrontacje Teatralne;
- 1988 – Prêmio Konrad Swinarski outorgado pela revista "Teatr", pela direção da peça "Os visionários" de Robert Musil no Stary Teatr de Kraków;
- 1992 – Prêmio Leon Schiller por realizações excepcionais na arte da encenação no ano de 1991;
- 1995 – 3º prêmio para a peça "Lunatycy" (Os sonâmbulos) de Hermann Broch do Stary Teatr em Kraków no 5º Festival Internacional "Kontakt" em Toruń;
- 1996 – Prémio Krzysztof Kieślowski de melhor encenação para "Płatonow wiśniowy i oliwkowy" (Platonov cereja e azeitona) baseado em Platonov de Anton Tchekhov realizado na Escola Nacional de Teatro em Kraków outorgada na 14ª Revista de Espetáculos de Diploma das Escolas de Teatro em Łódź;
- 1997 - Statuetka Fredry, prêmio da Associação dos Amigos do Teatro em Wrocław e dos críticos pelo “evento teatral do ano de 1996" para "Immanuel Kant" de Thomas Bernhard no Teatro Polski em Wrocław;
- 1998 – Prêmio do Ministro de Cultura no campo de teatro;
- 1999 – Prêmio pela direção de "Powrót Odysa" (O retorno de Odisseu) de Stanisław Wyspiański no Teatro Dramatyczny em Varsóvia no festival Opolskie Konfrontacje Teatralne; Paris – Prêmio dos Críticos Franceses da melhor peça não francófona na temporada 1998/99 para "Lunatycy" (Os sonâmbulos) de Hermann Broch do Stary Teatr em Kraków;
- 2000 – Prêmio da Seção dos Críticos ITI da promoção da cultura teatral polonesa no estrangeiro; Wrocław – o prêmio da melhor peça e a Statuetka Fredry para "Prezydentki" (As presidentas) de Werner Schwab no Teatro Polski em Wrocław outorgados na ocasião do Dia Internacional do Teatro; Ludwik – prêmio do meio teatral de Kraków para o encenador e para o espetáculo "Bracia Karamazov" (Os irmãos Karamazov) de Fiódor Dostoiévski no Stary Teatr em Kraków;
- 2001 – Cruz de mérito da Áustria; Feliks Warszawski – prêmio de melhor diretor da temporada 2000/01 pela direção da peça "Auslöschung/Wymazywanie" (Auslöschung/Extinção) de Thomas Bernhard no Teatro Dramatyczny em Varsóvia;
- 2002 – Ordem Francesa das Artes e das Letras; Statuetka Pegaza – prêmio do programa de televisão "Pegaz" para o melhor diretor de teatro;
- 2003 - Grand Prix para a peça dla spektaklu "Auslöschung/Wymazywanie" (Auslöschung/Extinção) de Thomas Bernhard do Teatro Dramatyczny em Varsóvia no 37º Festival de Teatro BITEF em Belgrado; Cruz de Oficial da Ordem da Polônia Restituta;
- 2004 - Ludwik – prêmio do meio teatral de Kraków pela encenação e cenografia de "Kalkwerk" de Thomas Bernhard no Stary Teatr em Kraków para o melhor espetáculo; Prêmio do público para a melhor peça e o prêmio do Supremo Conselho da Loja dos Amigos do Teatro Powszechny em Łódź pelo Ponto Alto do Festival para Kalkwerk de Thomas Bernhard no 10º festival Festiwal Sztuk Przyjemnych i Nieprzyjemnych em Łódź;
- 2008 – Prêmio Ars Quaerendi pelo projeto da adaptação da "A tentação da quieta Verônica" de Robert Musil; Roma - Prêmio Europeu do Teatro de carreira;
- 2009 - Premio Europa per il Teatro (Prêmio Europeu do Teatro) concedido pelo meio teatral internacional.
- 2014 – Festival Boska Komedia: a melhor encenação, a melhor peça e o melhor papel masculino;
- 2015 - Supergwarancja – prêmio especial da emissora TVP Kultura.
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Autor: Monika Mokrzycka-Pokora, fevereiro de 2004; atualização: junho de 2013 (SW), abril de 2015(AL); tradução: Katarzyna Stachowicz