O mundo descobre Szymanowski
Em 1994, foi lançado um disco da EMI com gravações de três composições de Karol Szymanowski: "A Litania à Virgem Maria" ("Litania do Marii Panny"), "Stabat Mater", e "3ª Sinfonia". Cantaram Elżbieta Szmytka, Florence Quivar, John Connell e Jon Garrison, com participação dos músicos da City of Birmingham Symphony Orchestra and Chorus e direção do maestro Simon Rattle, que estava começando a sua brilhante carreira mundial. Quando o perguntaram sobre a música de Szymanowski, respondeu:
Não posso falar de Szymanowski com objetividade, não se pode esperar de uma pessoa apaixonada que fale objetivamente ou que tenha bom senso. De qualquer maneira, bom senso ao falar dessa música seria inadequado. O meu primeiro encontro com Szymanowski ocorreu há uns 15 anos atrás, durante um almoço com o meu amigo, o pianista inglês Paul Crossley. Paul era uma pessoa cujos conselhos eu sempre aproveitava sem olhar para trás. Com freqüência a gente se encontrava, ele botava notas musicais na minha frente e falava: "Tem que dar olhada nisso". Mas naquela noite ele falou: "Tenho algo especial para você", depois sentou ao piano e tocou um fragmento de alguma composição. Eu não tinha nenhuma ideia do que era, mas depois de alguns compassos eu fiquei extremamente excitado e sabia que era paixão à primeira vista. Paul tocou para mim a última parte do "Stabat Mater".
Essa composição entrou no programa de um dos meus primeiros concertos com a City of Birmingham Symphony Orchestra. É até uma vergonha admitir, que o coro naquela vez cantou em latim. Mas eu sabia que teríamos que preparar uma versão polonesa. Nós desbravamos essa língua difícil (só o finlandês e o húngaro parecem mais difíceis), mas não tem grandes semelhanças entre o sotaque birminghamês e a língua polonesa. Apenas dez letras são pronunciadas do mesmo jeito em inglês e polonês, por isso foi uma experiência que moldou o nosso caráter de todos os jeitos. O trabalho com o coro demorou um ano, mas dizem que agora dá para entender o que cantam os sopranos. Acho que se os poloneses tentassem cantar em galês, entenderiam os nossos problemas. Mas chegamos a um ponto em que a língua começou a influenciar o som da música, o seu ritmo. Por exemplo, ao segurar as vogais do jeito certo, e ao entrar com as consoantes, dávamos um pulso específico à música. O coro deixou de ser um grupo de cantores ingleses, distanciados perante uma composição desconhecida e alheia, e começou a entrar para dentro dessa música. Foi uma viagem incrível para nós. A música de Szymanowski "pegou" esse grupo, "pegou" o coro e a orquestra. Depois executamos o "Stabat Mater" várias vezes, em seguida começamos a trabalhar a "3ª Sinfonia"…
Eu estou sentindo que nós entramos com essa música na hora certa. Só agora que o mundo está pronto para recebê-la. As composições religiosas de Szymanowski - como o "Stabat Mater", "Litania à Virgem Maria"- respondem de modo cada vez mais claro à necessidade de espiritualidade. Além disso, essa música é esplendidamente multi-tonal e muito emocional. Os Ingleses não estavam capazes de aceitar uma sensibilidade tão intensa e direta, tiveram que amadurecer. Agora estamos prontos para ela. Eu sempre ficava surpreso porque os violinistas no mundo não tocam pelo menos um concerto de Szymanowski, porque os pianistas não tocam a "Sinfonia concertante" ("Symfonia koncertująca"). Essas composições podiam ter enriquecido o repertório mundial há muito tempo. Hoje é muito importante não se limitar às vinte, trinta composições gravadas por Toscanini. O público está aberto para o novo repertório, e uma das evidências disso é o sucesso extraordinário de Górecki, e não somente entre o público filarmônico tradicional. Ele tem um novo público na Inglaterra, que até então não escutava a música clássica. Acho que isso pode ocorrer também no caso de Szymanowski.
Eu devo a descoberta da “3ª Sinfonia” de Szymanowski a Witold Lutosławski. Ele me contou que depois de ouví-la pela primeira vez, passou algumas semanas vivendo como se estivesse em transe. Foi essa composição que fez ele tomar a decisão sobre a carreira de compositor. A “3ª Sinfonia” é uma composição maravilhosa, mística, em que aparece a fascinação pelo Oriente. É uma trilha com ambiente que se dá bem com as necessidades de locutores contemporâneos. No entanto, creio que a criação posterior de Szymanowski é ainda mais valiosa para a nossa cultura de hoje - quando ele se vira perante a tradição polonesa, até deriva das raízes eslavas, faz uma referência a Musorgski. No final do século XX, o resto do mundo deveria descobrir algo que vocês sempre souberam: que Szymanowski é um dos maiores compositores deste século.” (“Studio" 1994 n° 10)
Outro maestro mundialmente famoso, Charles Dutoit, gravou junto com a sua equipe da Orchestre Symphonique de Montreal os dois concertos de violino de Karol Szymanowski. A violinista canadense Chantal Juillet foi a solista. O disco foi editado em 1994 pela empresa Decca. Dutoit falou sobre a música de Szymanowski:
"A música de Szymanowski nos convém muito, ela tem tantas tonalidades, é cheia de cores maravilhosas e nesse sentido não parece vir da Europa Central. Acho que nós tocamos ela bastante bem. Já executamos várias composições de Szymanowski, não apenas os concertos de violino da senhorita Juillet, com os quais fizemos uma tournée ao redor do mundo. Fomos até para Buenos Aires e Tóquio. Também tocamos a 3ª e 4ª Sinfonia, a "Abertura do Concerto", "Stabat Mater". Sobraram poucas composições de orquestra. Essa música talvez não seja muito popular, mas o seu tempo está chegando. Faz muito tempo que estou fascinado por ela. Eu executei obras de Szymanowski com todas as grandes orquestras americanas - com a New York Philharmonic, Boston Symphony Orchestra, Philadelphia Orchestra, entre outras. Ainda na época de tocar violino, eu executei a "Fonte de Arethusa" ("Źródło Aretuzy") dos "Mitos" ("Mity"). É uma das composições que devem ser tocadas por qualquer violinista. A "Sonata de violino" ("Sonata skrzypcowa") é extraordinária, gosto dos dois quartetos. Também conheço um pouco da música pianística de Szymanowski."("Studio" 1994 n° 9)
Parece que a música de Szymanowski encontrou a sua hora e hoje chega com freqüência cada vez maior às salas de concertos e nos palcos de ópera. Um dos fatores mais importantes do renascimento de Szymanowski no mundo é a ópera "Rei Roger" ("Król Roger"), que está tomando a liderança entre as óperas polonesas mais populares de todos os tempos. Esta obra foi composta entre 1918 e 1924 para o libreto de Jarosław Iwaszkiewicz. Szymanowski já havia passado pela fascinação pelo neo-romantismo alemão, e estava buscando novas inspirações. Em 1914, fez uma viagem muito marcante para o seu desenvolvimento artístico - para a Itália, Sicília e África do Norte. No caminho de volta ele parou em Paris, onde conheceu a criação de Claude Debussy e Maurice Ravel. As composições que seriam feitas a partir de então permaneceriam, em grande parte, sob influência do impressionismo, do exotismo e da antiguidade. Os temas são exóticos e antigos, aparecem também elementos da estilização; o caráter dos sons é impressionista. Szymanowski simplifica a textura das suas composições, desiste da densa junção de vários fios melódicos. Não desiste da melodia, mas a desenvolve com um fundo de sons consoantes que reluzem de cores. Isso é característico para o impressionismo que, sublinhando o valor do impacto do som, destaca no primeiro plano a harmonia, e reduz o significado da melodia.
Szymanowski junta o afeto da harmonia com um papel ativo da melodia, dando ao seu “impressionismo” um cariz individual, que o destacou de outros criadores europeus ligados a essa corrente. Todas essas características da linguagem musical de Szymanowski aparecem claramente no "Rei Roger" e junto com a temática do libreto decidem sobre a sua originalidade incomum. Tem tanto elementos de um drama musical nos leitmotiv, quanto as óperas em forma de cenas fechadas que adiam o desencadeamento da ação, mas sempre ficam muito ancoradas nela, e além disso tem ecos de tragédia grega com os seus coros situados fora da ação dramática. Desse jeito, Szymanowski criou um tipo de espetáculo de palco e musical, extraordinariamente original em comparação com a criação europeia da época.
fragment opery "Król Roger"; więcej na ninateka.pl
Há várias composições igualmente originais na criação de Szymanowski. Todas as suas músicas se caracterizam pelo charme único, que pode ser muito atraente para os melômanos contemporâneos.
Multimídia
Para assistir - conjunto de materiais visuais no site karolszymanowski.pl
Para escutar
Elaboração: A Associação de Compositores Poloneses (Związek Kompozytorów Polskich), Centro Polonês de Informação Musical (Polskie Centrum Informacji Muzycznej), 2002.
Em 2007, tiveram lugar dois aniversários importantes ligados a Karol Szymanowski – 125º aniversário do nascimento do compositor e o 70º aniversário de sua morte. Por isso, o Parlamento da República da Polônia, durante a sessão do dia 16 de novembro de 2006, adotou uma resolução sobre a anunciação do ano de 2007 como o Ano de Karol Szymanowski. No site www.culture.pl está disponível, desde o início de 2007, um módulo especial que contém informações ampliadas sobre a vida e criação do compositor, e também sobre os eventos durante o Ano de Karol Szymanowski no país e no exterior.
O Instituto Adam Mickiewicz em cooperação com a Universidade de Varsóvia lançou em 2011 o site www.karolszymanowski.pl.