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Yanka Rudzka

Yanka Rudzka i Lia Robatto, fot. CC BY 2.0 / cadernodecinema.com.br)
Yanka Rudzka e Lia Robatto, foto: CC BY 2.0 (cadernodecinema.com.br)

Yanka Rudzka foi uma dançarina e coreógrafa polonesa. Fundadora da Escola de Dança em Salvador, Bahia, foi também uma das personagens mais importantes da dança brasileira contemporânea. Nasceu em 1916 e faleceu em 2008.

"Mulher com uma presença forte e marcante, muito bonita, de cabelos loiros e cachos rebeldes, olhos azuis e penetrantes e um sorriso relaxante. Pessoa de temperamento forte, imprevisível, que facilmente ficava furiosa quando alguém a contestava, mas sempre bondosa com as pessoas.  Era elegante e ágil, ainda que o seu corpo não fosse tão magro e musculoso como os corpos de bailarinos de ballet clássico. Era extremamente exigente no trabalho mas, ao mesmo tempo, muito crítica em relação aos sistemas de ensino e dogmas coreográficos convencionais. Era contra a artificialidade formal da dança clássica e a perfeição técnica desprovida de significado. Buscava uma naturalidade no movimento corporal na dança. Muito econômica no movimento cênico, embora suas coreografias fossem excitantes e criativas."  

Dançarina entre culturas diferentes 

Yanka Rudzka, zdjęcie archiwalne, fot. dzięki uprzejmości asystentki artystki
Yanka Rudzka, foto de arquivo, cortesia de Lia Robatto - assistente e dançarina da artista

Assim Yanka Rudzka foi descrita por Lia Robatto, sua assistente por longos anos e solista no seu grupo de dança. A Segunda Guerra Mundial e os anos de emigração fizeram com que não se salvasse praticamente nenhuma informação em polonês sobre a biografia e a atuação da artista. Sua formação e desenvolvimento artístico se deram principalmente fora de seu país de origem. Por isso, é um fato desconhecido na Polônia que, nos anos 50 do século passado, Rudzka emigrou para o Brasil e se tornou uma das personagens mais importantes da cena de dança que lá se formava.  No ano de 1956, quando Rudzka fundou em  Salvador a primeira escola universitária de dança, trouxe consigo uma visão estética pioneira, uma linguagem do movimento cênico inovadora e um tipo específico de presença cênica, resultante das experiências da colaboração direta com os reformadores da dança mais importantes, principalmente os envolvidos com a dança expressionista.  Suas experiências cênicas se desenvolveram entre a Polônia, a Alemanha e o Brasil. Este triângulo pouco comum formou uma artista excepcional com uma história extraordinária, digna de ser relembrada.  

Janka Rudzka (mais tarde mudou o nome para Yanka), nasceu na Polônia em 1916. Estudou dança sob a orientação de Ruth Sorel e Georg Groke, ambos alunos da escola de dança expressionista de Mary Wigman. Em seguida, Janka frequentou as aulas do coreógrafo Harold Kreutzberg na Suíça. Morou também em Londres, na Itália e na Argentina. No início dos anos 1950, foi convidada ao Brasil. Passou lá treze anos. Foram os anos mais importantes para a sua carreira artística. Em 1952, chegou a São Paulo através do convite de Pietro Maria Bardi para ministrar um dos primeiros cursos de dança moderna no país, no Museu de Arte Contemporânea por ele fundado. No mesmo período, ela ensinou também dramaturgia corporal aos atores da Escola de Arte Dramática, hoje parte da Universidade de São Paulo, a prestigiosa USP, além disso, colaborou com várias outras instituições culturais.

Já naquela altura, a dançarina influenciou de modo significativo a dança no Brasil, mas o mais importante iria acontecer após a sua mudança para Salvador, na Bahia. Os anos 1950 foram um período de um desenvolvimento intensivo da cultura e arte brasileiras.  O então reitor da Universidade Federal da Bahia, Edgar Santos, introduziu uma série de reformas, cujo objetivo era integrar a cidade de Salvador no circuito mais amplo da cultura contemporânea. Na primeira metade dos anos 1950 foram criadas, dentro da universidade, quatro escolas artísticas - Escola das Artes Visuais, Academia de Música, Escola Teatral e, enfim, a Escola de Dança. O ambiente criativo foi ainda mais intensificado pela criação de outras instituições importantes, tais como: Centro de Estudos Afro-Orientais, liderado pelo professor Agostinho da Silva, Museu da Arte Sacra, fundado por Dom Clemente Silva Nigra e Museu da Arte Contemporânea, projetado e comandado por Lina Bobardi. Estas instituições modernas logo ganharam um reconhecimento no Brasil e no exterior.  Para comandá-las foram convidados  personagens ilustres da arte e cultura da época, tais como: a arquiteta Lina Bobardi, o diretor teatral proeminente Eros Martim Gonçalves e o músico Hans Joachim Koelreuter. O último, convenceu o conselho de ensino da Universidade, com o reitor Edgar Santos à frente, a convidar Yanka Rudzka para ocupar o cargo de diretora da Escola de Dança UFBA.

Rudzka ficou em Salvador por pouco mais de três anos, no período entre os anos de 1956 - 1959, quando conseguiu criar os fundamentos da Escola de Dança da Universidade Federal da Bahia. Neste curto período de tempo, ela influenciou não apenas o meio acadêmico, mas também o meio artístico de Salvador. As ideias de Rudzka difundiram-se rapidamente  para outros centros culturais do país.  Numa perspectiva atual, pode-se dizer que, durante a sua estadia em Salvador, Yanka abriu o caminho para o desenvolvimento da dança profissional no Brasil. 

Escola de Dança da Universidade Federal da Bahia

Yanka Rudzka, zdjęcia archiwalne, fot. dzięki uprzejmości asystentki artystki
Yanka Rudzka, foto de arquivo, Foto: Sílvio Robatto, cortesia da Lia Robatto - assistente da artista

A proposta de Rudzka foi a visão universal da cultura e da arte, contemplando mudanças ocorridas na técnica da dança moderna, destacando também a valorização da cultura e da tradição local.  Sua visão era baseada em pressupostos interdisciplinares. Procurava analisar a dança a partir de perspectivas diferentes. Introduzindo o curso de dança moderna, ela propôs também aulas de anatomia, história da arte, estética, música e percepção cênica. Uma das novidades era também a proposta de desconstrução e análise do processo criativo, recorrendo à análise cultural, fisiologia dos dançarinos e teoria geral da arte.  

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O projeto dedicado à obra da coreógrafa polonesa Yanka Rudzka faz parte do Festival VIVADANÇA no... Read more about: Yanka Rudzka e a dança polonesa no festival VIVADANÇA

A maior contribuição de Rudzka foi, contudo, a introdução no palco da interrelação entre a cultura tradicional afro-brasileira e as artes cênicas modernas. Foi a primeira artista cênica daquele período que levou em consideração, dentro do seu processo criativo, a realidade cultural local.  Conseguiu exceder as fronteiras do mero exotismo e folclorização. O que mais lhe chamou atenção, durante suas pesquisas artísticas, foram os cultos de possessão locais, ou seja, o candomblé afro-brasileiro.  Lia Robatto lembra de ter visto, por muitas vezes, Rudzka anotando as linhas melódicas dos tambores afro-brasileiros e frequentando as cerimônias de candomblé. Rudzka  foi a primeira coreógrafa na Bahia que usou, de maneira consciente, a simbologia de gestos do candomblé nos seus trabalhos.  Introduziu também para o palco o instrumento tradicional berimbau, utilizado na capoeira.

Vale a pena refletir acerca desse casamento da modernidade com a tradição. Pode-se arriscar a afirmação de que a postura analítica perante a dança e a introdução no palco das emoções reais fossem um resultado da contribuição da estética expressionista.  Qual a origem, porém, dessa síntese da modernidade nas coreografias de Rudzka? A hipótese levantada por Lia Robatto é a de que justamente nesse aspecto é que se percebe a influência da tradição cênica polonesa. O diretor seguinte da Escola de Dança UFBA, o alemão Rolf Gelewski, continuou a introduzir a estética do expressionismo, sem fazer, porém, uma referência tão forte à tradição. Como salienta a assistente de Rudzka, a diferença entre os dois consistia na sensibilidade distinta em relação ao mundo ao redor.  Rudzka sabia perfeitamente entender e valorizar no palco o ambiente em que decorria o seu trabalho artístico. A união entre a tradição e a modernidade é um dos temas mais importantes da cultura da região nordeste do Brasil.  Foi lá que nasceu, em protesto contra a dominação colonial, a chamada estética da revolta, baseada no respeito pela tradição e na valorização da cultura africana. Considerando a forte relação entre a arte cênica e a tradição romântica na Polônia, talvez possamos entender mais facilmente as motivações das pesquisas artísticas afro-brasileiras de Rudzka. 

Autor: Maciej Różalski, maio de 2015, tradução: Magdalena Walczuk

Mais informações sobre Yanka Rudzka encontram-se em publicação  eletrônica “Yanka Rudzka: entre traços da história e vestígios da memória” lançada por VIVADANÇA Festival Internacional, em parceria com o Art Stations Foundation e Culture.pl.  A publicação reune textos de pesquisadores da Bahia e da Polônia, e é resultado do projeto que estudou os rastros deixados pela coreógrafa polonesa na Bahia, realizado durante a décima edição do festival, em abril de 2016. Os textos estão disponíveis em português e polonês. http://www.festivalvivadanca.com.br/wp-content/uploads/2016/05/YANKA-RUDZKA-OK.pdf

Visite o site Culture.pl/brasil para obter informações sobre os mais interessantes eventos da cultura polonesa que ocorrem no Brasil, e ter acesso a uma grande quantidade de biografias, resenhas e artigos.

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2016/02/23

Yanka Rudzka

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