Dentro destas múltiplas capacidades e talentos, qual prevalecia, na sua opinião?
A poesia. Ele se dizia poeta. Quando alguém lhe perguntava ele respondia de pronto: “eu sou poeta”. Para ele a poesia estava em tudo. Até nos seus trabalhos como biógrafo tem muita poesia. No jornalismo e na publicidade também. Um dos seus livros de prosa: “Metaformose” ganhou o “Jabuti” de melhor livro na categoria poesia. Em qualquer coisa que ele fazia a poesia estava presente, era o núcleo central do seu trabalho.
Você assistia a este processo de criação do seu pai?
Sim. Eu lembro bem de duas casas onde a gente morou e do escritório dele que era muito marcante pra mim. Uma das casas era de madeira com lambrequins, tipicamente polonesa, cada cômodo de uma cor... Em ambas as casa, o escritório era conjugado com a sala. A produção cultural normalmente nascia em casa. Escrevia poesia, biografias, traduzia, compunha, tudo isso acontecia bem no centro da casa. Meu pai não se isolava para trabalhar e eu estava lá como se estivesse assistindo a um filme ou uma cena, quase teatral, onde se via o escritor, sentado, em frente a uma máquina de escrever super antiga, rodeado por livros, suas referências bibliográficas, muitos quadros, estantes de livros até o teto, pilhas de papéis espalhadas pelo ambiente... Quem via aquilo achava que era um caos, mas ele não deixava que tirassem nada do lugar. Sabia onde estava cada documento, cada livro. Ele tinha uma organização bem particular.
Como ele estava sempre num espaço acessível, quando eu era bem nova costumava interrompê-lo muito. E ele respondia com uma das frases que mais ouvi na infância: “Agora não que estou tendo uma ideia!”. Ele criava o tempo todo. Acontecia muito de ser de madrugada, quando a casa ficava calma. Durante muitos anos ele trabalhou em agência de publicidade, chegava em casa, descansava um pouco se preparando pra passar boa parte da madrugada produzindo. O seu trabalho autoral era muito importante, embora ele gostasse também de trabalhar com publicidade. Justamente porque lidava com palavras. Meu pai também, na medida possível, dentro da loucura que era, conseguia dar esta atenção diária para a gente. Mas ele fez isso do jeito dele.
Ele entendia o mundo dos jovens, dos seus filhos?
Meu pai era um erudito e ao mesmo tempo era uma pessoa pop. Ele gostava de Michael Jackson, adorava The Police e Sex Pistols, a cultura punk foi uma coisa que mexeu muito com ele, na música popular brasileira ele adorava Titãs. Ele era um rockeiro. Na idade de ser rockeiro, ele foi rockeiro e nunca deixou de ser. Isso o ligava ao universo pop, tinha interesse pelas coisas que estavam acontecendo no momento. Ele não se fechava no mundo cheio de tradições e regras, transitava por diversos mundos, do popular ao acadêmico. Foi um representante da poesia marginal, uma poesia direta, precisa e concisa, com a qual se identificam hoje muitos jovens crescidos na época de redes sociais. Quando ele começou a criar, os mais tradicionalistas achavam que o que ele produzia não era poesia. O tempo passou e hoje o jeito dele fazer poesia influencia gerações de novos poetas. Eu fico muito feliz quando ministro palestras em escolas públicas e particulares e percebo adolescentes de uns catorze anos interessadíssimos em Paulo Leminski. Essa geração se identifica com a obra dele.

Paulo Leminski, foto: João Urban
Ele se identificava com a Polônia?
Ele tinha muito orgulho de ser descendente de poloneses por parte de pai e fazia questão de dizer que era um “polaco”. Em Curitiba se criou uma diferenciação para se referir os imigrantes: “polaco” para denominar quem era de origem humilde, quem tinha imigrado pra trabalhar no campo, por exemplo, e “polonês” era para aqueles de uma classe “superior”. Como se polaco fosse uma forma pejorativa. Esta foi uma polêmica na cidade que aos poucos fez muita gente se posicionar. Meu pai foi um dos primeiros a defender o termo “polaco” e rechaçava o termo “polonês”. Não aceitava as castas que se criaram dentro da comunidade polonesa.
Ainda faz muitos anos, quando não se falava sobre o orgulho polaco, meu pai já levantava a bandeira, dizendo “sou polaco” ou “negro mestiço”. Ele era descendente de negro, índio e português por parte de mãe. A Polônia estava sempre presente no discurso dele, está em muitos poemas e ensaios. O avô chegou ao Brasil em 1895 com a primeira esposa, que morreu logo depois e então ele casou novamente com uma imigrante polonesa que conheceu no Brasil. Casaram-se e tiveram nove filhos. Um deles foi o pai de Paulo Leminski. Temos até hoje alguns cadernos e livros com os quais o pai de Paulo estava tentando estudar polonês, mas infelizmente a língua não foi passada do pai ao filho. Uma situação comum entre os imigrantes poloneses. A língua se perdeu.

O livro de poesia de Adam Mickiewicz trazido da Polônia pelo avô de Paulo Leminski, foto: Aurea Leminski
O avô dele trouxe da Polônia o livro de Adam Mickiewicz, que chegou, como herança, nas mãos do meu pai e despertou interesse imediato pelo poeta polonês e pela questão polonesa. Ele fez questão de aprender, pelo menos o suficiente, para poder traduzir poemas dele. Tem também aqui dois dicionários de português – polonês, que ele com certeza tinha comprado num sebo.
Quais são as atuais atividades desenvolvidas por você e por sua irmã, Estrela, para divulgar o legado de Leminski?
Estamos na fase de elaboração de um Centro Cultural Paulo Leminski, um espaço de visitação onde vamos disponibilizar todo o acervo para a consulta dos pesquisadores e montar uma exposição permanente. Em Curitiba já existe um espaço que leva o nome de Paulo Leminski, a Pedreira Paulo Leminski, um local de shows fantástico, para o qual vem artistas do mundo inteiro para se apresentar, inclusive Paul McCartney e David Gilmour. Quem fundou a Pedreira Paulo Leminski, foi Jaime Lerner, que foi perfeito de Curitiba na época. Quando você anda pela cidade, você percebe a forte presença de Paulo Leminski, tem muitos graffitis, não só com os poemas, mas também com o rosto dele, uma coisa marcada que cria uma associação direta que liga Paulo Leminski com a cidade de Curitiba. A presença dele continua sendo muito forte na capital paranaense. Acho também que chegou a hora de apresentar a sua obra ao público polonês.
Entrevistadora: Aleksandra Pluta
Visite o site Culture.pl/brasil para obter informações sobre os mais interessantes eventos da cultura polonesa que ocorrem no Brasil, e ter acesso a uma grande quantidade de biografias, resenhas e artigos.